Mestiçagem e poder: entre a síntese cultural e a crítica estrutural
DOI:
https://doi.org/10.58210/rie3738Palavras-chave:
mestiçagem, identidade, democracia racial, pensamento decolonial, coexistência culturalResumo
Este artigo propõe uma análise comparativa entre Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, e Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil, de Kabengele Munanga, obras do pensamento social brasileiro. O estudo examina, por meio de um mapeamento conceitual, seis eixos de contraste: diagnóstico histórico, conceito de mestiçagem, violência, democracia racial, categorias raciais e implicações normativas. Argumenta-se que Freyre formula uma gramática cultural da mestiçagem como síntese civilizatória e fundamento simbólico da nação, enquanto Munanga reinscreve o conceito como tecnologia social do poder e instrumento de reprodução das hierarquias raciais. A comparação evidencia uma inflexão epistemológica: a mestiçagem desloca-se da visão integradora para a crítica estrutural e, finalmente, para uma categoria relacional de coexistência, em diálogo com perspectivas decoloniais. Assim, a mestiçagem é reinterpretada não como harmonia ou degeneração, mas como campo de disputa simbólica e política, cuja compreensão é essencial para repensá-la como categoria ética e política de coexistência.
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