Educação ambiental, imagens e resistência em "Mulheres atingidas por barragens: bordando direitos" (MASP, 2025) - Volumen 13 Número 2 - Página —-


REVISTA INCLUSIONES – REVISTA DE HUMANIDADES Y CIENCIAS SOCIALES

ISSN 0719-4706
Volumen 13 Número 2
Abril - Junio 2026
e3771
https://doi.org/10.58210/rie3771


Educação ambiental, imagens e resistência em "Mulheres atingidas por barragens: bordando direitos" (MASP, 2025)
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Educación ambiental, imágenes y resistencia en "Mujeres afectadas por represas: bordeando derechos" (MASP, 2025)
/
Environmental education, images and resistance in "Women affected by dams: Embroidering rights" (MASP, 2025)

Dr. Renato Duro Dias
Universidade Federal do Rio Grande, Brasil
renatodurodias@gmail.com
https://orcid.org/0000-0002-9849-1332

Fecha de Recepción: 25 de febrero de 2026
Fecha de Aceptación: 3 de abril de 2026
Fecha de Publicación: 6 de abril de 2026

Financiamiento:

El autor declara que este estudio no recibió financiación externa.

Conflictos de interés:

El autor también declara no tener ningún conflicto de intereses.

Correspondencia:

Nombres y Apellidos: Renato Duro Dias
Correo electrónico: renatodurodias@gmail.com

Dirección postal: Km 8 Avenida Itália Carreiros, Rio Grande - RS, 96203-900, Brasil


Los autores retienen los derechos de autor de este artículo. Revista Inclusiones publica esta obra bajo una licencia Creative Commons Atribución 4.0 Internacional (CC BY 4.0), que permite su uso, distribución y reproducción en cualquier medio, siempre que se cite apropiadamente a los autores originales.

https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

RESUMO

Este artigo discute as contribuições da luta e da resistência das Mulheres Atingidas por Barragens (MAB[1]) para o campo da Educação Ambiental a partir da análise da produção de arpilleras. Neste sentido, analisam-se os documentos têxteis que expressam a realidade apresentada na exposição: “Mulheres Atingidas por Barragens: bordando direitos” (MASP, 2025), que reuniu 47 arpilleras de diversas regiões do Brasil, as quais manifestam o tecer de uma sociedade mais humana, sensível e coletiva. Trata-se de pesquisa de abordagem qualitativa baseada na imagética produzida nos bordados e nas histórias coletivas experenciadas por estas mulheres, vidas que se juntam para tecer um futuro melhor. A arte reivindica luta e resistência, em uma construção histórica feita ponto a ponto como forma de superação das opressões ambientais sofridas. A proposta revela narrativas bordadas de esperanças. Assim, a costura transforma-se numa ferramenta poderosa de resistência, denúncia e empoderamento feminino, produzindo reflexões para a Educação Ambiental.

Palavras-Chave

Educação Ambiental; Mulheres Atingidas por Barragens; Imagens; Resistência.

RESUMEN

Este artículo discute las contribuciones de la lucha y de la resistencia de las Mujeres Afectadas por Represas (MAB) al campo de la Educación Ambiental a partir del análisis de la producción de arpilleras. En este sentido, se analizan los documentos textiles que expresan la realidad presentada en la exposición: "Mujeres Afectadas por Represas: Bordeando derechos" (MASP, 2025), que reunió 47 arpilleras de diversas regiones de Brasil, las cuales manifiestan el tejer de una sociedad más humana, sensible y colectiva. Se trata de investigación de abordaje cualitativo basado en la imagética producida en los bordados y en las historias colectivas experimentadas por estas mujeres, vidas que se unen para tejer un futuro mejor. El arte reivindica lucha y resistencia, en una construcción histórica hecha punto a punto como forma de superación de las opresiones ambientales sufridas. La propuesta revela narrativas bordadas de esperanzas. Así, la costura se convierte en una herramienta poderosa de resistencia, denuncia y empoderamiento femenino, produciendo reflexiones para la Educación Ambiental.

Palabras clave

Educación Ambiental; Mujeres Afectadas por Represas; Imágenes; Resistencia.

ABSTRACT
This article discusses the contributions of struggle and resistance of Women Affected by Dams (MAB) to the field of Environmental Education from the analysis of arpillera production. In this sense, the textile documents are analyzed that express the reality presented in the exhibition: "Women Affected by Dams: embroidering our rights" (MASP, 2025), which brought together 47 arpilleras from various regions of Brazil, which show the weaving of a more humane society, sensitive and collective. It is a research of qualitative approach based on the imageology produced in the embroidery and in the collective stories experienced by these women, lives that come together to weave a better future. Art claims struggle and resistance, in a historical construction made point by point as a way to overcome the environmental oppressions suffered. The proposal reveals narratives embroidered with hope. Thus, sewing becomes a powerful tool of resistance, denunciation and female empowerment, producing reflections for Environmental Education.

Key Words

Environmental Education; Women Affected by Dams; Images; Resistance.

INTRODUÇÃO

O campo da Educação Ambiental no Brasil tem passado por profundas transformações epistemológicas, distanciando-se de visões puramente conservacionistas ou comportamentais para abraçar uma perspectiva crítica e emancipatória. Conforme aponta Loureiro[2], a Educação Ambiental Crítica não se limita à transmissão de conteúdos sobre a preservação da natureza, mas propõe uma leitura política da realidade, em que o meio ambiente é compreendido como um campo de disputa de poder e significados. É sob este prisma que o presente artigo se debruça sobre a trajetória do Movimento das Mulheres Atingidas por Barragens (MAB), cujas práticas de resistência territorial oferecem contribuições singulares para o pensamento ambiental contemporâneo. O modelo de desenvolvimento hegemônico, pautado na implementação de grandes empreendimentos hidrelétricos, frequentemente ignora os custos sociais e humanos, gerando processos de desterritorialização que afetam de forma desproporcional as populações vulnerabilizadas.

Neste cenário de conflitos socioambientais, as mulheres emergem como sujeitos políticos centrais. De acordo com a perspectiva do ecofeminismo latino-americano, as mulheres são as primeiras a sentir os impactos da degradação ambiental e da perda de acesso aos recursos naturais, dado o seu papel histórico na manutenção da vida e da reprodução social. Contudo, essa vulnerabilidade é convertida em força coletiva através de estratégias de insurgência estética e política.

O ato de resistir, para as mulheres do MAB, não se restringe aos espaços de negociação institucional ou aos protestos de rua; ele se manifesta de forma potente no fazer manual, especificamente na produção de arpilleras. Esta técnica têxtil, que remonta à resistência chilena durante a ditadura de Augusto Pinochet, foi ressignificada no Brasil como uma ferramenta de denúncia e memória. Como observa Agosín[3], a arpillera funciona como um "grito silencioso", onde o retalho e o ponto de agulha substituem a palavra escrita para registrar histórias que o discurso oficial do Estado e das grandes empresas busca apagar.

A problemática central deste estudo reside na compreensão de como a costura, tradicionalmente relegada ao âmbito doméstico e privado, transita para o espaço público e político, tornando-se uma metodologia de Educação Ambiental (EA) não formal. Ao analisarmos os documentos têxteis apresentados na exposição “Mulheres Atingidas por Barragens: bordando direitos”, realizada no Museu de Arte de São Paulo (MASP) em 2025, deparamo-nos com 47 obras que sintetizam a realidade de diversas regiões do Brasil.

A escolha do MASP como palco para estas narrativas é simbólica, pois desloca o saber popular e a arte das margens para o centro do cânone artístico nacional, validando a estética da resistência como uma forma legítima de produção de conhecimento. Nestas obras, a imagética produzida nos bordados não apenas retrata a violência da perda da terra ou do rio, mas manifesta o tecer de uma sociedade mais humana, sensível e coletiva, conforme proposto pelo resumo desta pesquisa.

Do ponto de vista metodológico, este trabalho ancora-se em uma abordagem qualitativa, fundamentada na análise iconográfica e discursiva dos bordados e nas narrativas coletivas vivenciadas por essas mulheres. A pesquisa qualitativa, conforme Minayo[4], permite mergulhar no universo dos significados, motivos, aspirações e atitudes dos sujeitos, o que é essencial para compreender a subjetividade contida em cada ponto da arpillera. A análise da imagética busca decodificar os símbolos presentes nos panos, tais como: o sol, a água, a cerca, a boneca de pano, transformando, assim, cada elemento em um dado analítico que revela a superação das opressões ambientais sofridas.

Trata-se de uma investigação que valoriza a história oral e a memória sensível, entendendo que a construção histórica é feita ponto a ponto, em um processo pedagógico que Freire[5] chamaria de conscientização e libertação.

Portanto, o objetivo primordial desta investigação é discutir as interseções entre imagens, arte têxtil e a EAC. A proposta revela narrativas bordadas de esperança, que desafiam a lógica da destruição ambiental. Ao longo do desenvolvimento deste artigo, problematiza-se como a costura se transforma em uma ferramenta de empoderamento feminino, produzindo reflexões profundas para a Educação Ambiental ao questionar quem são os verdadeiros sujeitos do saber ecológico. Através da união entre a teoria crítica e a prática sensível das arpilleras, busca-se demonstrar que o futuro ambiental não é apenas algo a ser conservado, mas algo a ser ativamente tecido por mãos que conhecem a terra, o rio e a luta pela dignidade.

Para tal, o presente artigo está dividido em três etapas. Na primeira, historiciza-se o MAB, num segundo momento, apresenta-se e discute-se algumas das obras expostas no MASP no ano passado e, logo a seguir, reflexiona-se sobre as contribuições destes documentos têxteis para a Educação Ambiental.

  1. O movimento das mulheres atingidas por barragens e a gênese das arpilleras no Brasil

A compreensão das contribuições das Mulheres Atingidas por Barragens (MAB) para a Educação Ambiental exige, primeiramente, o resgate histórico da técnica que fundamenta sua resistência. As arpilleras não surgem no Brasil como um adorno estético, mas como uma herança política da América Latina. Originárias das comunidades de bordadeiras de Isla Negra, no Chile, elas ganharam contornos de denúncia durante a ditadura militar de Augusto Pinochet. Naquele contexto, mulheres de presos e desaparecidos políticos utilizavam retalhos de roupas de seus entes queridos para costurar, no verso de sacos de farinha ou batata, as violações de direitos humanos que o regime tentava ocultar.

"Arpillera" significa "juta" em espanhol, o nome da fibra têxtil que recebe bordados que narram histórias de vida, luta e resistência das autoras e dos contextos nos quais estão inseridas. A partir de materiais de uso cotidiano, como linhas, agulhas e tecidos, as mulheres atingidas, integrantes do Coletivo Nacional de Mulheres do MAB, abordam temas como desterritorialização, poluição dos rios, do solo e do ar, falta de acesso à água potável e à energia elétrica, violência sexual e de gênero e condições desiguais no trabalho, entre outras violações de direitos humanos e ambientais causadas pela construção de barragens, seja para a mineração ou para a criação de usinas hidrelétricas. As peças que elas criam se tornam testemunhos.[6] 

Essa estética da urgência atravessou fronteiras e encontrou, no Movimento dos Atingidos por Barragens no Brasil, um novo território de luta contra o modelo de desenvolvimento predatório das grandes hidrelétricas.

A transposição dessa técnica para o contexto brasileiro, iniciada de forma sistemática pela Secretaria de Mulheres do MAB a partir de 2013, revelou uma profunda simbiose entre o fazer manual e a educação política. Para as mulheres atingidas, a construção de uma barragem não representa apenas um impacto técnico ou econômico; representa a ruptura de laços comunitários e a perda da soberania sobre o próprio corpo e território.

Como aponta a ecofeminista Vandana Shiva[7], existe uma correlação direta entre a violência contra a natureza e a marginalização das mulheres em projetos de desenvolvimento tecnocráticos. Ao pegarem na agulha, essas mulheres subvertem a lógica do silenciamento. O bordado deixa de ser uma tarefa doméstica passiva para se tornar uma cartografia da resistência, onde cada ponto delimita o território que lhes foi roubado e a vida que insistem em reconstruir.

Imagem 1 - Mulheres Atingidas do Pará. Privatização que mata, 2019.

Bordado sobre toldo. Acervo do Movimento dos Atingidos por Barragens, Brasil.

Texto

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Fonte: Autor (2025).

Neste processo, a arpillera atua como um dispositivo de Educação Ambiental Crítica ao promover o que Freire[8] define como uma possível leitura do mundo. O ato de costurar coletivamente, o costurão, como é chamado no movimento, funciona como uma assembleia de saberes. Enquanto os tecidos são cortados e unidos, as mulheres compartilham suas histórias de vida, identificam as causas comuns de sofrimento e sistematizam o conhecimento sobre os impactos ambientais em suas regiões. Essa práxis educativa transforma o sofrimento individual em consciência de classe e de gênero. A arpillera, portanto, torna-se um documento histórico que registra a fauna, a flora e a cultura ribeirinha ou camponesa que o mapa oficial da empresa de engenharia ignora.

Além disso, a produção têxtil do MAB desafia a dicotomia entre razão e sensibilidade na Educação Ambiental. Ao contrário dos relatórios de impacto ambiental (RIMA), que utilizam uma linguagem fria e pretensamente neutra para justificar o alagamento de vastas áreas, as arpilleras utilizam a cor, a textura e a tridimensionalidade para expressar a dimensão ética e afetiva da perda. A técnica de colocar preenchimento nas bonecas de pano para que elas se destaquem do fundo da obra simboliza o surgimento do sujeito político que se recusa a ser plano e invisível diante da história.

Por fim, a materialidade das arpilleras concede permanência à elaboração crítico-visual de suas autoras sobre as realidades vividas, por meio de uma poética diretamente relacionada às estratégias de luta do MAB, como mapear contextos e origens, responsabilizar os algozes, interseccionalizar pautas coletivas, educar para defender a vida e muitas outras em processo. Se no Renascimento o gesto do artista era considerado equivalente ao ato divino da criação, no caso das arpilleras, o mesmo gesto que borda diferentes materiais sobre tecido, criando narrativas-denúncia sobre as violações de direitos e propostas de encaminhamento, tem como base as ações do movimento social na perspectiva das mulheres que se articulam para reivindicar a proteção e a promoção desses mesmos direitos na vida real. Dessa forma, podemos considerar que as arpilleras são feitas a partir de um dos gestos mais nobres que a história da arte já registrou: a defesa da vida. E isso, sim, vale muito.[9] 

Esse bordar direitos é, em última análise, um exercício pedagógico de reapropriação do futuro, provando que a Educação Ambiental se faz também com a memória preservada no tecido e com a solidariedade tecida entre mulheres que, embora separadas geograficamente, estão unidas pelo mesmo fio de resistência.

  1. Educação ambiental, estética e resistência: o tecer das arpilleras como escrita de si e do mundo

2.1 A crise ambiental e a emergência de novos sujeitos políticos

O debate contemporâneo sobre a questão ambiental no Brasil não pode ser dissociado das lógicas de exploração do capital que, sob a égide do desenvolvimento, promovem desigualdade, exclusão e injustiça ambiental. A construção de grandes barragens hidrelétricas é um dos exemplos mais contundentes desse processo, em que o Estado e grandes corporações operam uma desterritorialização que apaga histórias e ecossistemas em nome de uma segurança energética excludente.

Nesse cenário, a Educação Ambiental (EA) é convocada a abandonar o seu caráter meramente conservacionista, focado na mudança de hábitos individuai, para assumir uma postura crítica e emancipatória. Conforme Loureiro[10], a EA Crítica deve ser um processo de disputa de hegemonia, onde o meio ambiente é compreendido como um território de vida, cultura e resistência.

No cerne dessa disputa, o Movimento de Mulheres Atingidas por Barragens (MAB) surgem como protagonistas de uma práxis educativa que une a sobrevivência material à resistência estética. A experiência dessas mulheres revela que o impacto ambiental é atravessado por uma dimensão de gênero: são elas que sofrem a ruptura dos laços de cuidado, a insegurança alimentar e a perda do espaço doméstico-comunitário. Contudo, essa condição de atingida é transmutada em luta por meio de ferramentas de subjetivação, como as arpilleras. Desta feita, aqui se analisa como a produção têxtil apresentada na exposição “Mulheres Atingidas por Barragens: bordando direitos” constitui uma forma de Educação Ambiental que se ancora na sensibilidade e na estética da existência, promovendo uma reflexão ética sobre o habitar o mundo. 

2.2 A Arpillera como documento têxtil e estética da existência

A técnica da arpillera, resgatada do contexto da resistência chilena, chega ao Brasil como uma linguagem de denúncia. No entanto, sua análise teórica à luz de Dias e Freire[11] permite interpretá-la para além do protesto político. Em sua obra, Dias e Freire[12] discutem a estética da existência como um processo de criação de si mesmo através do cuidado com o mundo e com o outro. Ao bordar, a mulher atingida não apenas representa um fato; ela narra a si mesma e reconstrói sua identidade despedaçada pelo desastre ambiental. O retalho de pano torna-se a metáfora da vida fragmentada que, através da agulha, ganha uma nova unidade, agora política e coletiva.

Imagem 2 - Mulheres Atingidas de Mariana, Minas Gerais.

 Vale quanto a vida, 2017

Livro com capa colorida

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Fonte: Autor (2025)

Essa perspectiva dialoga diretamente com a análise de Dias e Freire[13] sobre a exposição “A ecologia de Monet”. Enquanto na obra do impressionista francês discute-se a imersão sensível no jardim como forma de educação do olhar, nas arpilleras das mulheres do MAB o "jardim" é o território em disputa. A estética aqui não é o belo desinteressado, mas o sensível como instância de resistência.

O que Foucault parece querer dizer é que a questão ética e política da estética da existência não trata simplesmente de reviver os modos de vida grego ou de rememorar mera nostalgia histórica, mas sim de pensar que cada um (a sua maneira) possa fazer de sua vida uma obra de arte.[14] 

Como aponta o artigo publicado na RevBEA, o museu, seja no encontro com Monet ou com as bordadeiras do MAB, funciona como um espaço de afetamento. O público não apenas vê somente a obra, ele é provocado a sentir a textura da dor e a cor da esperança, operando uma Educação Ambiental que passa pelo corpo, pelo sentir e pelo afeto. Não é apenas pela cognição técnica (beleza) da obra, mas senão pelo que ela produz no espectador.

2.3 Imagética e simbologia: a narrativa do território ferido

As 47 arpilleras exibidas no MASP em 2025 oferecem um corpus imagético rico para a compreensão da Educação Ambiental. A análise qualitativa dessa produção revela uma simbologia recorrente: o sol que representa a energia da vida em contraste com o concreto frio das turbinas; o rio que flui livre em oposição ao lago morto e represado. Essa visualidade traduz o que Carvalho[15] denomina sujeito ecológico, ou seja, aquele que reconhece a interdependência entre a sua vida e a saúde do ecossistema. Nas mãos das mulheres do MAB, a linha de bordar atua como o fio de Ariadne que guia o sujeito para fora do labirinto da opressão, tecendo narrativas onde a natureza é sujeito de direitos e não apenas recurso a ser explorado.

A tridimensionalidade das arpilleras, obtida através do enchimento de bonecas e objetos, confere uma presença às histórias que o discurso desenvolvimentista tenta tornar planas e invisíveis. Quando uma mulher borda sua própria figura em relevo diante de uma máquina escavadeira, ela está operando uma subversão estética. Ela está dizendo que seu corpo e sua história se sobressaem e não podem ser ignorados. Esse processo de bordar direitos é uma ferramenta de empoderamento feminino que produz reflexões pedagógicas profundas, pois desloca a autoridade do saber ambiental das mãos ditas técnicas, para as mãos das comunidades que sentem em seu cotidiano a violência das barragens.

2.4. A Educação Ambiental no museu: o afetamento como metodologia

A presença dessa produção no MASP desafia as fronteiras entre o erudito e o popular, entre a arte e o ativismo. Integrando o pensamento de Dias e Freire (2026), a Educação Ambiental que emana dessas exposições é uma pedagogia do detalhe. No caso das arpilleras, o detalhe é o retalho de um vestido antigo, um pedaço de renda da família, ou a cor específica de um rio que não existe mais daquela forma. Essa materialidade da memória é o que promove o afetamento no espectador. Ao contrário de um gráfico de impacto ambiental, a arpillera comunica a dimensão ética da existência que foi violada.

Além da exposição de um dos maiores pintores impressionistas, o MASP expõe obras de variados artistas, dedicando-se a construir uma verdadeira história ou histórias da Ecologia. Ao longo de 2025 o museu destaca as produções de Pierre Renoir, Hulda Guzmán, Frans Krajcberg, ClarissaTossin e Mulheres Atingidas por Barragens. A proposta do MASP, com esta inciativa, é expandir os debates sobre o meio ambiente e refletir sobre a relação do ser humano com o mundo natural a partir de diferentes contextos, épocas e linguagens artísticas.[16] 

A costura transforma-se, assim, em uma ferramenta de denúncia e empoderamento. O processo de criação coletiva das obras que frequentemente é realizado em grupos de mulheres, se traduz, em si, num ato educativo. Nele, exercita-se a sororidade, a escuta ativa e a sistematização da experiência vivida. A Educação Ambiental Crítica encontra nas arpilleras sua máxima expressão de práxis: a ação-reflexão-ação que visa a transformação social. O museu, nesse sentido, torna-se um território educativo onde a estética da resistência e da luta das mulheres do MAB convergem para um objetivo comum: o reencantamento do mundo e a afirmação de que outras formas de habitar a Terra são possíveis e necessárias.

2.5. Tecer o futuro como prática pedagógica

Percebe-se, assim, que as contribuições das Mulheres Atingidas por Barragens para a Educação Ambiental ultrapassam a denúncia de danos. Elas oferecem uma lição sobre a resiliência do sensível. A costura, longe de ser uma tarefa submissa, é revelada como uma arma de resistência e uma ferramenta de escrita da história. A análise das arpilleras no MASP nos ensina que a Educação Ambiental só é efetiva quando ela é capaz de tocar a subjetividade e de mobilizar o desejo de mudança, como ocorre com a obra O preço da luz é um roubo (2019), um bordado sobre tecido do Acervo do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)

Imagem 3 - Mulheres Atingidas do Pará.

O preço da luz é um roubo, 2019.

Uma imagem contendo criança, pequeno, menina, mulher

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Fonte: Autor, 2025.

Esta arpillera se divide em cinco partes que abordam como as tarifas de energia elétrica atingem a população paraense. O primeiro quadro representa o sacrifício feito pelos consumidores, que evitam utilizar seus aparelhos domésticos para reduzir os valores da conta que chega no final do mês. No segundo, temos as bandeiras tarifárias anuais que pesam no bolso das(os) trabalhadoras(es), que precisam contar centavos - os únicos que restam - para efetuar o pagamento. Há também um questionamento: "Se é tão barato produzir energia no Brasil, por que nossa conta de luz chega tão cara?" O terceiro quadro representa as famílias que vivem à luz de velas, sem condições de pagar ou renegociar suas dívidas. Ao lado, vemos uma cena muito comum nas periferias: um funcionário da Equatorial, empresa responsável pela distribuição de energia no Pará, usa uma escada para cortar a energia de uma moradora. Ao centro, um grupo de atingidas se organiza em um ato de denúncia.[17]

Através da interlocução e da experiência estética de exposições como “Mulheres Atingidas por Barragens: bordando direitos” e "A Ecologia de Monet", compreende-se que o fazer artístico é um ato de cuidar da existência.

A arte, neste contexto, é, por excelência, um campo plural que comunica por conteúdos científicos, mas também por linguagens sensíveis, simbólicas e estéticas. Assim, a arte pode ser compreendida como um dos dispositivos que produzem educações ambientais que permitem pensar outras formas de relação com o ambiente, seja pela beleza ou pela denúncia.

Pela arte pode-se desnaturalizar as verdades universais ao revelar o ambiente como um campo permanente de conflitos e disputas, mas também resistente e múltiplo. Além disso, ao provocar estranhamento, emoção ou reflexão, a arte se apresenta como não normativa, possibilitando que a pessoa se reconheça e se reposicione diante da natureza e da sociedade. Ao envolver história, memória e imaginar futuros possíveis, a arte se conecta com as educações ambientais que se revelam críticas, criativas e prospectivas.[18]

As mulheres do MAB, ao bordarem suas esperanças e suas dores, estão educando a sociedade para uma nova ética ambiental, uma ética que não separa o humano da natureza e que compreende que toda luta por território é também uma luta por dignidade. O futuro, como as arpilleras, está sendo tecido ponto a ponto, por mãos que se recusam a soltar o fio da justiça e da coletividade.

3. O bordado como Luta e as potentes Contribuições para a Educação Ambiental


A trajetória das Mulheres Atingidas por Barragens (MAB), se potencializam na exposição no MASP em 2025, oferecendo ao campo da Educação Ambiental Crítica (EAC) uma contribuição que transcende a mera denúncia de impactos ecológicos. O bordado se transforma numa potente ferramenta de luta e resistência e simboliza uma pedagogia do fazer que se sustenta na materialidade e na subjetividade.

Ao sintetizar-se estas contribuições, é imperativo retornar ao conceito de EAC. Para Loureiro, a educação deve ser compreendida como uma "práxis social que contribui para a emancipação dos sujeitos"[19]. No caso das arpilleristas, a emancipação ocorre no momento em que a agulha rompe o silêncio impostos pelas forças de um capitalismo exploratório, representado por hidrelétricas e empresas extrativistas. A contribuição primordial aqui é a compreensão de que a EAC não se faz apenas com dados estatísticos sobre o volume de reservatórios, mas com a escuta das memórias que esses reservatórios pretendem afogar. Por outro lado, a contribuição para a EAC reside na capacidade da arte têxtil de gerar empatia e solidariedade política, elementos fundamentais para a construção de uma consciência coletiva planetária.

A dimensão do empoderamento feminino e as lutas ecofeministas também são ressignificadas no contexto brasileiro, a partir da luta das mulheres do MAB. As contribuições do MAB revelam que a gestão do território é inseparável da justiça de gênero. Ao bordarem seus direitos, as mulheres subvertem a divisão sexual do trabalho. A costura, historicamente vista como uma atividade de submissão doméstica, é ressignificada como ferramenta de insurgência.

Vandana Shiva e Maria Mies lembram que "a libertação da natureza e a libertação das mulheres são processos interdependentes"[20]. A arpillera contribui para a Educação Ambiental ao inserir o feminismo camponês e ribeirinho no centro do debate ecológico. Ela ensina que a defesa do rio é, simultaneamente, a defesa do corpo feminino contra a violência institucional e privada. A pedagogia que emana dessas obras é uma pedagogia do cuidado, que coloca a manutenção da vida acima do lucro desenfreado.

Além disso, a prática das arpilleras oferece uma lição metodológica sobre a autonomia em Freire[21]. Como observou Paulo Freire[22], ninguém educa ninguém, tampouco ninguém se educa sozinho: os homens e as mulheres se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo. Nestes encontros coletivos o bordar se traduz na materialização da comunhão freiriana. A contribuição para a EAC está na demonstração de que o conhecimento ambiental é produzido de forma dialógica. Enquanto bordam uma cena de repressão policial ou uma feira de sementes crioulas, as mulheres sistematizam sua própria realidade. Elas enredam suas histórias individuais para construir relatos coletivos, somando vozes e tecendo escritas nas lutas contra a degradação do bioma em que residem.

CONCLUSÕES

Para não concluir, este estudo demonstrou que as arpilleras são mais do que objetos artísticos. Elas são ferramentas pedagógicas de luta e resistência que desafiam a EAC a olhar para as mãos que costuram a história. A pesquisa reafirma que o futuro ambiental do Brasil está sendo tecido ponto a ponto, em uma construção coletiva que exige sensibilidade para sentir o outro, coragem para denunciar a opressão e arte para imaginar e bordar um mundo onde caibam todos os rios, todas as cores, todos os seres (humanos ou não humanos).

Coletividade e conexão também fazem parte das metodologias de ensino que orientam as atividades desenvolvidas e organizadas desde 2013 pelo Coletivo Nacional de Mulheres do MAB junto às comunidades atingidas em todo o território nacional. A criação de cada peça é resultado do trabalho conjunto realizado nesses encontros, que, em diálogo com a educação popular, visam à conscientização, à autonomia e à transformação social.

Assim, o presente estudo também revela que os documentos têxteis ampliam o alcance e o impacto das atividades de luta e do debate público sobre os temas abordados, tornando o ativismo do movimento mais efetivo e promovendo o avanço de suas agendas políticas no combate às desigualdades estruturadas pelo capitalismo.

Por fim, a síntese das contribuições para a Educação Ambiental aponta para a necessidade de um reencantamento do mundo através da luta. Em um cenário de colapso climático e desespero ambiental, as "narrativas bordadas de esperança" analisadas na exposição do MASP oferecem um antídoto ao niilismo. A agulha, ao unir retalhos de dor para formar um painel de resistência, ensina que a esperança não é uma espera passiva, mas, como diria Freire, um verbo: esperançar. A contribuição definitiva do Movimento das Mulheres Atingidas por Barragens é mostrar que a Educação Ambiental Crítica deve ser capaz de produzir beleza em meio às emergências climáticas.

A estética da existência utiliza-se do sensível como escudo e a criatividade como elemento de transformação social. Utilizando pedaços de tecidos e roupas do cotidiano, além de agulhas e linhas, as artistas exploram temas como violência doméstica, ruptura entre terra e comunidade, dificuldades no acesso à água e eletricidade, e os efeitos negativos das barragens e da poluição dos rios na pesca e na subsistência das famílias, assim como outras violações de direitos ambientais.


Logo, a   Educação   Ambiental   Crítica   se   apresenta   contra   hegemonicamente, desvelando a violência que sustenta o modo de vista capitalista o qual opera, especialmente, a partir da exclusão, desumanização e desigualdade.  Um sistema que, ao se consolidar, instituiu e concretizou a negação do outro.
[23] 

A exposição no MASP não apenas proporciona visibilidade às arpilleras como também evidencia o poder da arte como estratégia de denúncia, memória e mobilização social. Ao reunir obras de diferentes regiões do Brasil, o projeto ressalta a diversidade de experiências das mulheres atingidas por barragens, valorizando suas vozes e trajetórias diante dos impactos socioambientais. O diálogo entre as arpilleras brasileiras e as tradicionais chilenas fortalece uma rede internacional de solidariedade e resistência, mostrando que a luta por direitos e justiça ambiental ultrapassa fronteiras geográficas e culturais. Além disso, a exposição e o livro contribuem para ampliar o debate sobre o papel das mulheres como protagonistas na construção de alternativas sustentáveis, na defesa dos territórios e na construção de uma outra Educação Ambiental.

REFERÊNCIAS

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Dias, Renato Duro, y Simone Grohs Freire. "Educações Ambientais na exposição 'A ecologia de Monet' (2025): por uma estética da existência." Revista Brasileira de Educação Ambiental (RevBEA) 21, no. 1 (2026): 304–320. https://doi.org/10.34024/revbea.2026.v21.21121.

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Minayo, Maria Cecília de Souza, org. Pesquisa Social: Teoria, Método e Criatividade. 29. ed. Petrópolis: Vozes, 2010.

Shiva, Vandana, y Maria Mies. Ecofeminismo. Lisboa: Instituto Piaget, 1997.

Las opiniones, análisis y conclusiones del autor son de su responsabilidad y no necesariamente reflejan el pensamiento de Revista Inclusiones.


[1] O presente artigo se utilizará da sigla MAB para referir-se ao Movimento de Mulheres Afetadas por Barragens, fazendo jus à exposição do MASP (2025). Importa dizer que em parte da literatura essa sigla também significa Movimento dos Atingidos por Barragens.

[2] Carlos Frederico Bernardo Loureiro, Trajetória e Fundamentos da Educação Ambiental Crítica, 4. ed. (São Paulo: Cortez, 2012), 27.

[3] Marjorie Agosín, Tapestries of Hope, Threads of Love: The Arpillera Movement in Chile, 2. ed., (Lanham: Rowman & Littlefield Publishers, 2008), 14.

[4] Maria Cecília de Souza Minayo, Pesquisa Social: teoria, método e criatividade, 29. ed. (Petrópolis: Vozes, 2010), 35.

[5] Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido, 17. ed. (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987), 45.

[6] Glaucea Helena de Britto, "Mulheres Atingidas por Barragens: bordando direitos", en Mulheres Atingidas por Barragens Bordando Direitos, org. Glaucea Helena de Britto e Isabella Rjeille (São Paulo: MASP, 2025), 18.

[7] Vanda Shiva, Maria Mies, Ecofeminismo. (Lisboa: Instituto Piaget, 1997),126.

[8] Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido, 17. ed. (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987), 47.

[9] Glaucea Helena de Brito, Mulheres Atingidas por Barragens, 32.

[10] Loureiro, Trajetória e Fundamentos, 27.

[11] Renato Duro Dias y Simone Grohs Freire, "Educações Ambientais na exposição ’A ecologia de Monet' (2025): por uma estética da existência", Revista Brasileira de Educação Ambiental (RevBEA) 21, no. 1 (2026):310. https://doi.org/10.34024/revbea.2026.v21.21121.

[12] Dias y Freire, "Educações Ambientais", 313.

[13] Dias y Freire, "Educações Ambientais", 314.

[14] Dias y Freire, "Educações Ambientais", 310.

[15] Isabel Cristina de Moura Carvalho, Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico, 6. ed. (São Paulo: Cortez, 2012): 36.

[16] Dias y Freire. “Educações Ambientais, 311.

[17] MASP, Museu de Arte de São Paule Assis Chateaubriand, Mulheres atingidas por barragens bordando direitos. Organização Glaucea Helena de Britto e isabella Rjeille, (São Paulo: Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), 2025.

[18] Dias y Freire, “Educações Ambientais, 307-308.

[19] Loureiro, Trajetória e Fundamentos, 27.

[20] Shiva y Mies, Ecofeminismo, 47.

[21] Freire, Pedagogia do Oprimido, 67.

[22] Freire, Pedagogia do Oprimido, 68.

[23] Dias y Freire, “Educações Ambientais”, 12.